Quando Aceitamos o Amor Que Nos É Possível Receber
Desde que me conheço por gente, esforcei-me para conquistar um amor que nunca chegou da forma que eu queria. Como uma criança que tenta segurar a areia entre os dedos, sem consciência de que nunca o conseguirá fazer. Também eu tentava segurar qualquer sinal de amor e carinho. Quanto mais tentava agarrar esse amor, mais ele se escapava.
Um dia, a minha psicóloga deu-me um livro para ler: o título era: "Mãe, porque não gostas de mim?". Quando vi o título pela primeira vez, senti um aperto profundo no peito, deixei o livro em cima de uma estante da sala, sem coragem de o abrir. A minha filha passou por ali, olhou e comentou: "Que triste! Nem consigo imaginar o que será isso." As suas palavras tocaram-me, e, naquele momento, percebi o quanto esta dor me tinha moldado. Passei uma vida numa verdadeira obsessão, nem sempre consciente, por querer conquistar esse amor que achava que merecia.
Este verão, depois de uma dura subida ao Monte Sinai, algo se revelou para mim. A subida foi um desafio físico, mas também uma viagem interior profunda que me deu muito para refletir. Senti claramente que tinha problemas com a energia feminina — não com mulheres-, mas com a própria essência do feminino.
Sou a filha e neta mais velha, e depois de mim veio o meu irmão. Desde pequena queria fazer tudo o que os rapazes faziam. Se eles eram fortes, eu queria ser forte. Não queria saber dos meus limites. Se usar roupa mais decotada podia dar origem a piropos, eu preferia escolher roupas que me dessem segurança. Percebi que, durante toda a minha vida, tinho negado parte de mim tentando ser algo que não eu. O que acredito é que se cedesse a minha essência ficaria ainda mais longe do amor da minha mãe. Quando não aceitamos quem somos, nem as nossas limitações, acabamos danificadas. O corpo dá sinais, que ignoramos e ignoramos, mas ele não vai parar até nos quebrar.
Hoje faz cinco anos do dia mais difícil da minha vida. Muito contrariada, muito zangada, fiz uma mastectomia. Na altura, estava tão focada no físico, na estetica do meu corpo, que não conseguia perceber ou sentir o que a vida me tentava dizer. Às vezes, as dores são tão grandes que tudo o que queremos é anestesiá-las, tapá-las com a urgência do momento. Mas a vida tem uma forma de nos fazer parar, de nos obrigar a olhar para dentro.
Aprendi que querer desesperadamente que alguém nos ame da forma que desejamos, e ficar zangada por não ter esse amor, só nos deixa infelizes, miseráveis e presas a uma situação que nos destrói, corrói lentamente.
Finalmente, consegui que o meu coração falasse mais alto do que a minha cabeça. Senti-me perdoar e ser perdoada. Senti que estava a cortar uma corda à qual me agarrava desesperadamente, uma corda que me magoava, que me queimava, que me prendia mas que eu não largava.
Abrir a mão foi uma sensação nova para mim. Somos criaturas de hábitos, e eu, há muitos anos, que vivia habituada a essa dor, a essa corda. É quase estranho viver sem ela, mas hoje sinto que vivo com mais paz.
O amor que recebi é o amor que foi possível darem. E, ao aceitar isso, sinto-me finalmente livre para ser quem sou, para abraçar a minha própria energia, para me aceitar completamente, com todas as minhas cicatrizes e todas as minhas forças. Sinto-me mais inteira, mais presente, mais eu.
Com amor,
Vanessa


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