Uma pausa forçada obriga-nos a olhar para nós

 Ouvi algumas vezes esta história nas aulas de yoga e fico sempre a refletir:

"Há muitos anos, numa pequena aldeia na China, vivia um camponês. Um dia, o cavalo do camponês fugiu. Os vizinhos vieram consolá-lo e disseram: “Que azar tiveste! Perder o teu único cavalo é uma terrível desgraça!”. O camponês simplesmente respondeu: “a ver vamos" Apenas vejo que o meu cavalo se foi.”

Algumas semanas depois, o cavalo voltou à aldeia, trazendo consigo uma manada de cavalos selvagens. Os vizinhos ficaram maravilhados e vieram felicitá-lo: “Que sorte tiveste! Agora tens tantos cavalos!”. O camponês, mantendo a sua calma, respondeu: “a ver vamos" Vejo apenas que agora tenho mais cavalos.”

O filho do camponês, ao tentar domar um dos cavalos selvagens, caiu e partiu a perna. Novamente, os vizinhos vieram lamentar: “Que azar tiveste, o teu filho está ferido!”. O camponês respondeu com a mesma serenidade: “a ver vamos" Vejo apenas que o meu filho partiu a perna.”

Algumas semanas depois, o exército do imperador chegou à aldeia para recrutar jovens para a guerra. O filho do camponês não pôde ser recrutado devido à perna partida. Os vizinhos vieram com lágrimas nos olhos e disseram: “Que sorte tiveste, o teu filho foi poupado da guerra!”. O camponês, mais uma vez, respondeu: “a ver vamos" Vejo apenas que o meu filho não foi enviado para a guerra.”

Esta história ilustra a filosofia do taoismo, que nos ensina a não julgar as situações como boas ou más, mas a aceitá-las como partes naturais da vida. O camponês compreendia que o mundo é imprevisível e a sabedoria está em manter a mente aberta e tranquila perante as mudanças, encontrando paz no fluxo natural da vida.

No final do ano passado, senti que precisava de mudar de rumo. Senti-o no coração e em todo o meu corpo; os danos físicos e emocionais já pesavam. 

2024 seria para cuidar de mim, tanto a nível físico como mental. Desliguei as redes sociais, que tanta ansiedade me causavam. Inscrevi-me numa formação que me parecia apaixonante. Decidi avançar com a reconstrução da mama, uma saga que precisa de tempo e paciência. 

Um dos meus objetivos é ter uma profissão em que consiga almoçar, ter rotinas que percebi serem importantes para a saúde e bem-estar, e algo que não me cause danos físicos.

Comecei a praticar yoga três vezes por semana e reforcei o apoio psicológico que sentia ser necessário. Sentia-me bem, fazia tudo o que precisava, e isso deixava-me feliz.  Em fevereiro, por impulso e muito entusiasmada com a ideia de melhorar a prática, inscrevi-me na formação de professores de yoga. A outra formação demorava a começar. Aos poucos, e como tinha tempo disponível, comecei a mexer mais nas redes sociais, estudava mais yoga, mas praticava menos. 

A minha turma de professores de yoga é uma turma de gente boa, divertida, esforçada e disposta a ajudar. No início do mês, durante um fim de semana do curso de yoga, tinha-me comprometido a fazer uma maquilhagem, primeiro é algo que tinha dito não querer voltar a fazer e segundo implicava não almoçar, mas para ajudar a festa disse a uma colega que a ajudaria num trabalho de maquilhagem no fim de semana seguinte. Nesse sábado, durante a aula, caí. Uma daquelas quedas parvas, sem grande explicação. E em duas horas dei por mim parada, com um par de muletas e de volta ao curso.

Várias pessoas disseram: "Já viste que azar? Agora como vais fazer com a formação de yoga?" E lembrei-me da história do camponês e pensei: se é bom ou mau, não sei. Só sei que agora não posso fazer grandes esforços, muito menos posições que exijam equilíbrio, mas a verdade é que, nesse dia, almocei tranquilamente e com extra amor e atenção dos meus colegas, sem dores nas costas (algo que se tivesse ido maquilhar não acontecia).

Nessa semana, comecei o meu tão desejado curso, não podia andar muito, mas podia ler bastante. Alguns amigos disseram: "Já viste que sorte? Agora podes dedicar-te mais à formação. Apenas vi que me podia dedicar mais aquela formação. 

O que quer a vida quando no força a parar? Obriga-nos a olhar para nós, a rever como nos estamos a comportar, as nossas relações, prioridades e a forma como nos cuidamos, saímos do “automático”.

Tinha a intenção de fazer várias mudanças significativas ao mesmo tempo, mas já ia lançada para me esquecer das horas de almoço, do desconforto de pegar nas malas e das posições que me deixam as costas sempre em mau estado. 

Mas esta pausa relembrou-me que é preciso tempo para a cura física, mental e emocional. Talvez o propósito seja reavaliar como abordo as mudanças e perceber que continuo no processo, e o mais relevante não mudei assim tanto como pensava. Afinal, eu ainda não sou a verdadeira prioridade.

Esta experiência ensina-me a importância de priorizar a saúde e o bem-estar em cada passo do caminho, e a não voltar a ceder com receio de desagradar e muito menos questionar o salto de fé que decidi dar este ano. 

A vida tem o seu próprio ritmo, nada que eu possa controlar. 

Que esta aprendizagem de aceitação e resiliência me traga mais cura e luz, para que não me desvie do caminho e consiga ver com clareza a direção.


Com amor,

Vanessa 








Comentários

  1. Quanto mais te leio, fico a falar comigo( nada que não seja normal em mim) ralho-me mais do que me elogio, é verdade, mas às até me mando calar.
    Mas "disse-me", nem sei que sentimento começo a ter por quem me privou de viver, conviver, com alguém como tu?
    Resta-me aceitar, e pedir a Deus que nunca mais te perca enquanto respirar.
    És linda por dentro e por fora.
    E, aprender contigo nas tuas várias facetas é algo que me fascina . Ly. Tia MC

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